O Sermão da Engrenagem Viva

As lendas dizem que, no começo, o mundo não tinha forma, apenas um breu gelado e rastejante. Foi então que Toth-Hermes, o Grande Arquiteto, desceu à escuridão. Os sacerdotes ensinam que ele esculpiu a terra e escreveu Taboas Sagradas com leis morais para nos ensinar a viver com retidão. Feito isso, ele se recolheu ao seu longo sono, deixando a obra nas mãos das divindades que despertaram depois dele.

Mas algo vasto ficou do lado de fora das paredes da criação.

Os profetas de rua sussurram o nome Yrrakhal. Um deus-demônio antigo, o Rei do Silêncio, consumido por uma inveja amarga do calor da vida. Acreditam que ele espreita além do céu escuro e nas névoas mais densas, odiando nossas vozes e nossas fogueiras. O povo acha que Yrrakhal é um tirano cruel que deseja punir o mundo e devorar as almas, sem compreender que a escuridão não tem rosto, não tem ódio e não tem mente; ela tem apenas fome.

Para impedir que esse abismo silencioso engula a terra, os cultos rezam aos Vigilantes de Aurathys — os grandes deuses guardiões, como Ephyros, que comanda a violência e a inconstância dos mares. Os clérigos pregam que os Vigilantes exigem que o mundo nunca pare de se mover, pois a estagnação é o maior dos pecados. A água deve bater nas pedras, a roda do destino deve girar.

Ao lado deles, operam os deuses menores dos homens: padroeiros da guerra, das mentiras, da arte e da memória. Essas divindades nos ensinam que a luta diária é sagrada. O sangue derramado nas batalhas, a paixão dos amantes, as intrigas dos nobres e até a dor do luto… tudo isso gera ruído. E é esse ruído, essa agitação caótica da vida mortal, que mantém a engrenagem do mundo girando forte o bastante para manter o Silêncio trancado do lado de fora.